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CARITAS – A PRÁTICA DO AMOR PELA IGREJA ENQUANTO «
COMUNIDADE DE AMOR »
A caridade da Igreja como manifestação
do amor trinitário
19.
«Se vês a caridade, vês a Trindade» — escrevia
Santo Agostinho. [11] Ao longo das reflexões anteriores, pudemos
fixar o nosso olhar no Trespassado (cf. Jo 19, 37; Zc 12, 10), reconhecendo
o desígnio do Pai que, movido pelo amor (cf. Jo 3, 16), enviou
o Filho unigénito ao mundo para redimir o homem. Quando morreu
na cruz, Jesus — como indica o evangelista — «entregou
o Espírito» (cf. Jo 19, 30), prelúdio daquele dom
do Espírito Santo que Ele havia de realizar depois da ressurreição
(cf. Jo 20, 22).
Deste modo, se actuaria a promessa dos «rios de água viva»
que, graças à efusão do Espírito, haviam de
emanar do coração dos crentes (cf. Jo 7, 38-39). De facto,
o Espírito é aquela força interior que harmoniza
seus corações com o coração de Cristo e leva-os
a amar os irmãos como Ele os amou, quando Se inclinou para lavar
os pés dos discípulos (cf. Jo 13, 1-13) e sobretudo quando
deu a sua vida por todos (cf. Jo 13, 1; 15, 13).
O Espírito é também força
que transforma o coração da comunidade eclesial, para ser,
no mundo, testemunha do amor do Pai, que quer fazer da humanidade uma
única família, em seu Filho. Toda a actividade da Igreja
é manifestação dum amor que procura o bem integral
do homem: procura a sua evangelização por meio da Palavra
e dos Sacramentos, empreendimento este muitas vezes heróico nas
suas realizações históricas; e procura a sua promoção
nos vários âmbitos da vida e da actividade humana.
Portanto, é amor o serviço que a Igreja exerce para acorrer
constantemente aos sofrimentos e às necessidades, mesmo materiais,
dos homens. É sobre este aspecto, sobre este serviço da
caridade, que desejo deter-me nesta segunda parte da Encíclica.
A caridade como dever da Igreja
20. O amor do próximo, radicado no amor de Deus,
é um dever antes de mais para cada um dos fiéis, mas é-o
também para a comunidade eclesial inteira, e isto a todos os seus
níveis: desde a comunidade local passando pela Igreja particular
até à Igreja universal na sua globalidade.
A Igreja também enquanto comunidade deve praticar o amor. Consequência
disto é que o amor tem necessidade também de organização
enquanto pressuposto para um serviço comunitário ordenado.
A consciência de tal dever teve relevância constitutiva na
Igreja desde os seus inícios: «Todos os crentes viviam unidos
e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam
o dinheiro por todos de acordo com as necessidades de cada um» (Act
2, 44-45).
Lucas conta-nos isto no quadro duma espécie de definição
da Igreja, entre cujos elementos constitutivos enumera a adesão
ao «ensino dos Apóstolos», à «comunhão»
(koinonia), à «fracção do pão»
e às «orações» (cf. Act 2, 42). O elemento
da «comunhão» (koinonia), que aqui ao início
não é especificado, aparece depois concretizado nos versículos
anteriormente citados: consiste precisamente no facto de os crentes terem
tudo em comum, pelo que, no seu meio, já não subsiste a
diferença entre ricos e pobres (cf. também Act 4, 32-37).
Com o crescimento da Igreja, esta forma radical de comunhão material
— verdade se diga — não pôde ser mantida. Mas
o núcleo essencial ficou: no seio da comunidade dos crentes não
deve haver uma forma de pobreza tal que sejam negados a alguém
os bens necessários para uma vida condigna.
21. Um passo decisivo na difícil busca de soluções
para realizar este princípio eclesial fundamental torna-se patente
naquela escolha de sete homens que foi o início do ofício
diaconal (cf. Act 6, 5-6). De facto, na Igreja primitiva tinha-se gerado,
na distribuição quotidiana às viúvas, uma
disparidade entre a parte de língua hebraica e a de língua
grega.
Os Apóstolos, a quem estavam confiados antes de mais a «oração»
(Eucaristia e Liturgia) e o «serviço da Palavra», sentiram-se
excessivamente carregados pelo «serviço das mesas»;
decidiram, por isso, reservar para eles o ministério principal
e criar para a outra mansão, também ela necessária
na Igreja, um organismo de sete pessoas.
Mas este grupo não devia realizar um serviço meramente técnico
de distribuição: deviam ser homens «cheios do Espírito
Santo e de sabedoria» (cf. Act 6, 1-6). Quer dizer que o serviço
social que tinham de cumprir era concreto sem dúvida alguma, mas
ao mesmo tempo era também um serviço espiritual; tratava-se,
na verdade, de um ofício verdadeiramente espiritual, que realizava
um dever essencial da Igreja, o do amor bem ordenado ao próximo.
Com a formação deste organismo dos Sete, a «diaconia»
— o serviço do amor ao próximo exercido comunitariamente
e de modo ordenado — ficara instaurada na estrutura fundamental
da própria Igreja.
22. Com o passar dos anos e a progressiva difusão
da Igreja, a prática da caridade confirmou-se como um dos seus
âmbitos essenciais, juntamente com a administração
dos Sacramentos e o anúncio da Palavra: praticar o amor para com
as viúvas e os órfãos, os presos, os doentes e necessitados
de qualquer género pertence tanto à sua essência como
o serviço dos Sacramentos e o anúncio do Evangelho.
A Igreja não pode descurar o serviço da caridade, tal como
não pode negligenciar os Sacramentos nem a Palavra. Para o demonstrar,
bastam alguns exemplos. O mártir Justino († por 155), no
contexto da celebração dominical dos cristãos, descreve
também a sua actividade caritativa relacionada com a Eucaristia
enquanto tal.
As pessoas abastadas fazem a sua oferta na medida das suas possibilidades,
cada uma o que quer; o Bispo serve-se disso para sustentar os órfãos,
as viúvas e aqueles que por doença ou outros motivos passam
necessidade, e também os presos e os forasteiros. [12]
O grande escritor cristão Tertuliano († depois de 220) conta
como a solicitude dos cristãos pelos necessitados de qualquer género
suscitava a admiração dos pagãos. [13] E, quando
Inácio de Antioquia († por 117) designa a Igreja de Roma
como aquela que «preside à caridade (agape)», [14]
pode-se supor que ele quisesse, com tal definição, exprimir
de qualquer modo também a sua actividade caritativa concreta.
23. Neste contexto, pode revelar-se útil uma referência
às estruturas jurídicas primitivas que tinham a ver com
o serviço da caridade na Igreja. A meados do século IV ganha
forma no Egipto a chamada «diaconia», que é, nos diversos
mosteiros, a instituição responsável pelo conjunto
das actividades assistenciais, pelo serviço precisamente da caridade.
A partir destes inícios, desenvolve-se até ao século
VI no Egipto uma corporação com plena capacidade jurídica,
à qual as autoridades civis confiam mesmo uma parte do trigo para
a distribuição pública. No Egipto, não só
cada mosteiro mas também cada diocese acabou por ter a sua diaconia
— uma instituição que se expande depois quer no Oriente
quer no Ocidente. O Papa Gregório Magno († 604) fala da diaconia
de Nápoles.
Relativamente a Roma, as diaconias são documentadas a partir dos
séculos VII e VIII; mas naturalmente já antes, e logo desde
os primórdios, a actividade assistencial aos pobres e doentes,
segundo os princípios da vida cristã expostos nos Actos
dos Apóstolos, era parte essencial da Igreja de Roma. Este dever
encontra uma sua viva expressão na figura do diácono Lourenço
(† 258).
A dramática descrição do seu martírio era
já conhecida por Santo Ambrósio († 397) e, no seu
núcleo, mostra-nos seguramente a figura autêntica do Santo.
Após a prisão dos seus irmãos na fé e do Papa,
a ele, como responsável pelo cuidado dos pobres de Roma, fora concedido
mais algum tempo de liberdade, para recolher os tesouros da Igreja e entregá-los
às autoridades civis.
Lourenço distribuiu o dinheiro disponível pelos pobres e,
depois, apresentou estes às autoridades como sendo o verdadeiro
tesouro da Igreja. [15] Independentemente da credibilidade histórica
que se queira atribuir a tais particulares, Lourenço ficou presente
na memória da Igreja como grande expoente da caridade eclesial.
24. Uma alusão merece a figura do imperador Juliano
o Apóstata († 363), porque demonstra uma vez mais quão
essencial era para a Igreja dos primeiros séculos a caridade organizada
e praticada. Criança de seis anos, Juliano assistira ao assassínio
de seu pai, de seu irmão e doutros familiares pelas guardas do
palácio imperial; esta brutalidade atribuiu-a ele — com razão
ou sem ela — ao imperador Constâncio, que se fazia passar
por um grande cristão.
Em consequência disso, a fé cristã acabou desacreditada
a seus olhos uma vez por todas. Feito imperador, decide restaurar o paganismo,
a antiga religião romana, mas ao mesmo tempo reformá-lo
para se tornar realmente a força propulsora do império.
Para isso, inspirou-se largamente no cristianismo. Instaurou uma hierarquia
de metropolitas e sacerdotes. Estes deviam promover o amor a Deus e ao
próximo.
Numa das suas cartas, [16] escrevera que o único aspecto do cristianismo
que o maravilhava era a actividade caritativa da Igreja. Por isso, considerou
determinante para o seu novo paganismo fazer surgir, a par do sistema
de caridade da Igreja, uma actividade equivalente na sua religião.
Os «Galileus» — dizia ele — tinham conquistado
assim a sua popularidade. Havia que imitá-los, senão mesmo
superá-los. Deste modo, o imperador confirmava que a caridade era
uma característica decisiva da comunidade cristã, da Igreja.
25. Chegados aqui, registremos dois dados essenciais tirados
das reflexões feitas:
a) A natureza íntima da Igreja exprime-se num tríplice
dever: anúncio da Palavra de Deus (kerygma-martyria), celebração
dos Sacramentos (leiturgia), serviço da caridade (diakonia). São
deveres que se reclamam mutuamente, não podendo um ser separado
dos outros. Para a Igreja, a caridade não é uma espécie
de actividade de assistência social que se poderia mesmo deixar
a outros, mas pertence à sua natureza, é expressão
irrenunciável da sua própria essência. [17]
b) A Igreja é a família de Deus no mundo.
Nesta família, não deve haver ninguém que sofra por
falta do necessário. Ao mesmo tempo, porém, a caritas-agape
estende-se para além das fronteiras da Igreja; a parábola
do bom Samaritano permanece como critério de medida, impondo a
universalidade do amor que se inclina para o necessitado encontrado «por
acaso» (cf. Lc 10, 31), seja ele quem for.
Mas, ressalvada esta universalidade do mandamento do amor, existe também
uma exigência especificamente eclesial — precisamente a exigência
de que, na própria Igreja enquanto família, nenhum membro
sofra porque passa necessidade. Neste sentido se pronuncia a Carta aos
Gálatas: «Portanto, enquanto temos tempo, pratiquemos o bem
para com todos, mas principalmente para com os irmãos na fé»
(6, 10).
Justiça e caridade
26. Desde o Oitocentos, vemos levantar-se contra a actividade
caritativa da Igreja uma objecção, explanada depois com
insistência sobretudo pelo pensamento marxista. Os pobres —
diz-se — não teriam necessidade de obras de caridade, mas
de justiça. As obras de caridade — as esmolas — seriam
na realidade, para os ricos, uma forma de subtraírem-se à
instauração da justiça e tranquilizarem a consciência,
mantendo as suas posições e defraudando os pobres nos seus
direitos.
Em vez de contribuir com as diversas obras de caridade para a manutenção
das condições existentes, seria necessário criar
uma ordem justa, na qual todos receberiam a sua respectiva parte de bens
da terra e, por conseguinte, já não teriam necessidade das
obras de caridade. Algo de verdade existe — devemos reconhecê-lo
— nesta argumentação, mas há também,
e não pouco, de errado.
É verdade que a norma fundamental do Estado deve ser a prossecução
da justiça e que a finalidade de uma justa ordem social é
garantir a cada um, no respeito do princípio da subsidiariedade,
a própria parte nos bens comuns. Isto mesmo sempre o têm
sublinhado a doutrina cristã sobre o Estado e a doutrina social
da Igreja.
Do ponto de vista histórico, a questão da justa ordem da
colectividade entrou numa nova situação com a formação
da sociedade industrial no Oitocentos. A aparição da indústria
moderna dissolveu as antigas estruturas sociais e provocou, com a massa
dos assalariados, uma mudança radical na composição
da sociedade, no seio da qual a relação entre capital e
trabalho se tornou a questão decisiva — questão que,
sob esta forma, era desconhecida antes.
As estruturas de produção e o capital tornaram-se o novo
poder que, colocado nas mãos de poucos, comportava para as massas
operárias uma privação de direitos, contra a qual
era preciso revoltar-se.
27. Forçoso é admitir que os representantes
da Igreja só lentamente se foram dando conta de que se colocava
em moldes novos o problema da justa estrutura da sociedade. Não
faltaram pioneiros: um deles, por exemplo, foi o Bispo Ketteler de Mogúncia
(† 1877).
Como resposta às necessidades concretas, surgiram também
círculos, associações, uniões, federações
e sobretudo novas congregações religiosas que, no Oitocentos,
desceram em campo contra a pobreza, as doenças e as situações
de carência no sector educativo.
Em 1891, entrou em cena o magistério pontifício com a Encíclica
Rerum novarum de Leão XIII.
Seguiu-se-lhe a Encíclica de Pio XI Quadragesimo anno, em 1931.
O Beato Papa João XXIII publicou, em 1961, a Encíclica Mater
et Magistra, enquanto Paulo VI, na Encíclica Populorum progressio
(1967) e na Carta Apostólica Octogesima adveniens (1971), analisou
com afinco a problemática social, que entretanto se tinha agravado
sobretudo na América Latina.
O meu grande predecessor João Paulo II deixou-nos uma trilogia
de Encíclicas sociais: Laborem exercens (1981), Sollicitudo rei
socialis (1987) e, por último, Centesimus annus (1991).
Deste modo, ao enfrentar situações e problemas sempre novos,
foi-se desenvolvendo uma doutrina social católica, que em 2004
foi apresentada de modo orgânico no Compêndio da doutrina
social da Igreja, redigido pelo Pontifício Conselho «Justiça
e Paz». O marxismo tinha indicado, na revolução mundial
e na sua preparação, a panaceia para a problemática
social: através da revolução e consequente colectivização
dos meios de produção — asseverava-se em tal doutrina
— devia dum momento para o outro caminhar tudo de modo diverso e
melhor. Este sonho desvaneceu-se.
Na difícil situação em que hoje nos encontramos por
causa também da globalização da economia, a doutrina
social da Igreja tornou-se uma indicação fundamental, que
propõe válidas orientações muito para além
das fronteiras eclesiais: tais orientações — face
ao progresso em acto — devem ser analisadas em diálogo com
todos aqueles que se preocupam seriamente do homem e do seu mundo.
28. Para definir com maior cuidado a relação
entre o necessário empenho em prol da justiça e o serviço
da caridade, é preciso anotar duas situações de facto
que são fundamentais:
a) A justa ordem da sociedade e do Estado é dever
central da política. Um Estado, que não se regesse segundo
a justiça, reduzir-se-ia a uma grande banda de ladrões,
como disse Agostinho uma vez: «Remota itaque iustitia quid sunt
regna nisi magna latrocinia?». [18] Pertence à estrutura
fundamental do cristianismo a distinção entre o que é
de César e o que é de Deus (cf. Mt 22, 21), isto é,
a distinção entre Estado e Igreja ou, como diz o Concílio
Vaticano II, a autonomia das realidades temporais. [19]
O Estado não pode impor a religião, mas deve garantir a
liberdade da mesma e a paz entre os aderentes das diversas religiões;
por sua vez, a Igreja como expressão social da fé cristã
tem a sua independência e vive, assente na fé, a sua forma
comunitária, que o Estado deve respeitar. As duas esferas são
distintas, mas sempre em recíproca relação.
A justiça é o objectivo e, consequentemente,
também a medida intrínseca de toda a política. A
política é mais do que uma simples técnica para a
definição dos ordenamentos públicos: a sua origem
e o seu objectivo estão precisamente na justiça, e esta
é de natureza ética. Assim, o Estado defronta-se inevitavelmente
com a questão: como realizar a justiça aqui e agora? Mas
esta pergunta pressupõe outra mais radical: o que é a justiça?
Isto é um problema que diz respeito à razão prática;
mas, para poder operar rectamente, a razão deve ser continuamente
purificada porque a sua cegueira ética, derivada da prevalência
do interesse e do poder que a deslumbram, é um perigo nunca totalmente
eliminado.
Neste ponto, política e fé tocam-se. A fé
tem, sem dúvida, a sua natureza específica de encontro com
o Deus vivo — um encontro que nos abre novos horizontes muito para
além do âmbito próprio da razão. Ao mesmo tempo,
porém, ela serve de força purificadora para a própria
razão. Partindo da perspectiva de Deus, liberta-a de suas cegueiras
e, consequentemente, ajuda-a a ser mais ela mesma.
A fé consente à razão de realizar melhor a sua missão
e ver mais claramente o que lhe é próprio. É aqui
que se coloca a doutrina social católica: esta não pretende
conferir à Igreja poder sobre o Estado; nem quer impor, àqueles
que não compartilham a fé, perspectivas e formas de comportamento
que pertencem a esta. Deseja simplesmente contribuir para a purificação
da razão e prestar a própria ajuda para fazer com que aquilo
que é justo possa, aqui e agora, ser reconhecido e, depois, também
realizado.
A doutrina social da Igreja discorre a partir da razão
e do direito natural, isto é, a partir daquilo que é conforme
à natureza de todo o ser humano. E sabe que não é
tarefa da Igreja fazer ela própria valer politicamente esta doutrina:
quer servir a formação da consciência na política
e ajudar a crescer a percepção das verdadeiras exigências
da justiça e, simultaneamente, a disponibilidade para agir com
base nas mesmas, ainda que tal colidisse com situações de
interesse pessoal.
Isto significa que a construção de um ordenamento social
e estatal justo, pelo qual seja dado a cada um o que lhe compete, é
um dever fundamental que deve enfrentar de novo cada geração.
Tratando-se de uma tarefa política, não pode ser encargo
imediato da Igreja.
Mas, como ao mesmo tempo é uma tarefa humana primária, a
Igreja tem o dever de oferecer, por meio da purificação
da razão e através da formação ética,
a sua contribuição específica para que as exigências
da justiça se tornem compreensíveis e politicamente realizáveis.
A Igreja não pode nem deve tomar nas suas próprias
mãos a batalha política para realizar a sociedade mais justa
possível. Não pode nem deve colocar-se no lugar do Estado.
Mas também não pode nem deve ficar à margem na luta
pela justiça. Deve inserir-se nela pela via da argumentação
racional e deve despertar as forças espirituais, sem as quais a
justiça, que sempre requer renúncias também, não
poderá afirmar-se nem prosperar.
A sociedade justa não pode ser obra da Igreja; deve ser realizada
pela política. Mas toca à Igreja, e profundamente, o empenhar-se
pela justiça trabalhando para a abertura da inteligência
e da vontade às exigências do bem.
b) O amor — caritas — será sempre necessário,
mesmo na sociedade mais justa. Não há qualquer ordenamento
estatal justo que possa tornar supérfluo o serviço do amor.
Quem quer desfazer-se do amor, prepara-se para se desfazer do homem enquanto
homem. Sempre haverá sofrimento que necessita de consolação
e ajuda. Haverá sempre solidão. Existirão sempre
também situações de necessidade material, para as
quais é indispensável uma ajuda na linha de um amor concreto
ao próximo. [20]
Um Estado, que queira prover a tudo e tudo açambarque, torna-se
no fim de contas uma instância burocrática, que não
pode assegurar o essencial de que o homem sofredor — todo o homem
— tem necessidade: a amorosa dedicação pessoal. Não
precisamos de um Estado que regule e domine tudo, mas de um Estado que
generosamente reconheça e apoie, segundo o princípio de
subsidiariedade, as iniciativas que nascem das diversas forças
sociais e conjugam espontaneidade e proximidade aos homens carecidos de
ajuda.
A Igreja é uma destas forças vivas: nela pulsa a dinâmica
do amor suscitado pelo Espírito de Cristo. Este amor não
oferece aos homens apenas uma ajuda material, mas também refrigério
e cuidado para a alma — ajuda esta muitas vezes mais necessária
que o apoio material.
A afirmação de que as estruturas justas tornariam supérfluas
as obras de caridade esconde, de facto, uma concepção materialista
do homem: o preconceito segundo o qual o homem viveria « só
de pão » (Mt 4, 4; cf. Dt 8, 3) — convicção
que humilha o homem e ignora precisamente aquilo que é mais especificamente
humano.
29. Deste modo, podemos determinar agora mais concretamente,
na vida da Igreja, a relação entre o empenho por um justo
ordenamento do Estado e da sociedade, por um lado, e a actividade caritativa
organizada, por outro. Viu-se que a formação de estruturas
justas não é imediatamente um dever da Igreja, mas pertence
à esfera da política, isto é, ao âmbito da
razão auto-responsável.
Nisto, o dever da Igreja é mediato, enquanto lhe compete contribuir
para a purificação da razão e o despertar das forças
morais, sem as quais não se constroem estruturas justas, nem estas
permanecem operativas por muito tempo.
Entretanto, o dever imediato de trabalhar por uma ordem
justa na sociedade é próprio dos fiéis leigos. Estes,
como cidadãos do Estado, são chamados a participar pessoalmente
na vida pública. Não podem, pois, abdicar «da múltipla
e variada acção económica, social, legislativa, administrativa
e cultural, destinada a promover orgânica e institucionalmente o
bem comum». [21]
Por conseguinte, é missão dos fiéis leigos configurar
rectamente a vida social, respeitando a sua legítima autonomia
e cooperando, segundo a respectiva competência e sob própria
responsabilidade, com os outros cidadãos. [22] Embora as manifestações
específicas da caridade eclesial nunca possam confundir-se com
a actividade do Estado, no entanto a verdade é que a caridade deve
animar a existência inteira dos fiéis leigos e, consequentemente,
também a sua actividade política vivida como «caridade
social». [23]
Caso diverso são as organizações
caritativas da Igreja, que constituem um seu opus proprium, um dever que
lhe é congénito, no qual ela não se limita a colaborar
colateralmente, mas actua como sujeito directamente responsável,
realizando o que corresponde à sua natureza.
A Igreja nunca poderá ser dispensada da prática da caridade
enquanto actividade organizada dos crentes, como aliás nunca haverá
uma situação onde não seja precisa a caridade de
cada um dos indivíduos cristãos, porque o homem, além
da justiça, tem e terá sempre necessidade do amor.
As múltiplas estruturas de serviço caritativo
no actual contexto social
30. Antes ainda de tentar uma definição
do perfil específico das actividades eclesiais ao serviço
do homem, quero considerar a situação geral do empenho pela
justiça e o amor no mundo actual.
a) Os meios de comunicação de massa tornaram
hoje o nosso planeta mais pequeno, aproximando rapidamente homens e culturas
profundamente diversos. Se, às vezes, este « estar juntos
» suscita incompreensões e tensões, o facto, porém,
de agora se chegar de forma muito mais imediata ao conhecimento das necessidades
dos homens constitui sobretudo um apelo a partilhar a sua situação
e as suas dificuldades.
Cada dia vamo-nos tornando conscientes de quanto se sofre no mundo, apesar
dos grandes progressos em campo científico e técnico, por
causa de uma miséria multiforme, tanto material como espiritual.
Por isso, este nosso tempo requer uma nova disponibilidade para socorrer
o próximo necessitado.
Sublinhou-o já o Concílio Vaticano II com palavras muito
claras: «No nosso tempo, em que os meios de comunicação
são mais rápidos, em que quase se venceu a distância
entre os homens, (...) a actividade caritativa pode e deve atingir as
necessidades de todos os homens». [24]
Por outro lado — e trata-se de um aspecto provocatório
e ao mesmo tempo encorajador do processo de globalização
—, o presente põe à nossa disposição
inumeráveis instrumentos para prestar ajuda humanitária
aos irmãos necessitados, não sendo os menos notáveis
entre eles os sistemas modernos para a distribuição de alimento
e vestuário, e também para a oferta de habitação
e acolhimento.
Superando as fronteiras das comunidades nacionais, a solicitude pelo próximo
tende, assim, a alargar os seus horizontes ao mundo inteiro. Justamente
o pôs em relevo o Concílio Vaticano II: «Entre os sinais
do nosso tempo, é digno de especial menção o crescente
e inelutável sentido de solidariedade entre todos os povos».
[25]
Os entes do Estado e as associações humanitárias
apadrinham iniciativas com tal finalidade, fazendo-o na maior parte dos
casos através de subsídios ou descontos fiscais, os primeiros,
e pondo à disposição verbas consideráveis,
as segundas. E assim a solidariedade expressa pela sociedade civil supera
significativamente a dos indivíduos.
b) Nesta situação, nasceram e desenvolveram-se
numerosas formas de colaboração entre as estruturas estatais
e as eclesiais, que se revelaram frutuosas. As estruturas eclesiais, com
a transparência da sua acção e a fidelidade ao dever
de testemunhar o amor, poderão animar de maneira cristã
também as estruturas civis, favorecendo uma recíproca coordenação
que não deixará de potenciar a eficácia do serviço
caritativo. [26]
Neste contexto, formaram-se também muitas organizações
com fins caritativos ou filantrópicos, que procuram, face aos problemas
sociais e políticos existentes, alcançar soluções
satisfatórias sob o aspecto humanitário. Um fenómeno
importante do nosso tempo é a aparição e difusão
de diversas formas de voluntariado, que se ocupam duma pluralidade de
serviços. [27]
Desejo aqui deixar uma palavra de particular apreço e gratidão
a todos aqueles que participam, de diversas formas, nestas actividades.
Tal empenho generalizado constitui, para os jovens, uma escola de vida
que educa para a solidariedade e a disponibilidade a darem não
simplesmente qualquer coisa, mas darem-se a si próprios.
À anti-cultura da morte, que se exprime por exemplo na droga, contrapõe-se
deste modo o amor que não procura o próprio interesse, mas
que, precisamente na disponibilidade a «perder-se a si mesmo»
pelo outro (cf. Lc 17, 33 e paralelos), se revela como cultura da vida.
Na Igreja Católica e noutras Igrejas e Comunidades
eclesiais, também apareceram novas formas de actividade caritativa
e ressurgiram antigas com zelo renovado. São formas nas quais se
consegue muitas vezes estabelecer uma feliz ligação entre
evangelização e obras de caridade.
Desejo aqui confirmar explicitamente aquilo que o meu grande predecessor
João Paulo II escreveu na sua Encíclica Sollicitudo rei
socialis, [28] quando declarou a disponibilidade da Igreja Católica
para colaborar com as organizações caritativas destas Igrejas
e Comunidades, uma vez que todos nós somos movidos pela mesma motivação
fundamental e temos diante dos olhos idêntico objectivo: um verdadeiro
humanismo, que reconhece no homem a imagem de Deus e quer ajudá-lo
a levar uma vida conforme a esta dignidade.
Depois, a Encíclica Ut unum sint voltou a sublinhar que, para o
progresso rumo a um mundo melhor, é necessária a voz comum
dos cristãos, o seu empenho em « fazer triunfar o respeito
pelos direitos e necessidades de todos, especialmente dos pobres, humilhados
e desprotegidos ». [29] Quero exprimir aqui a minha alegria pelo
facto de este desejo ter encontrado um vasto eco por todo o mundo em numerosas
iniciativas.
O perfil específico da actividade caritativa da
Igreja
31. O aumento de organizações diversificadas,
que se dedicam ao homem em suas várias necessidades, explica-se
fundamentalmente pelo facto de o imperativo do amor ao próximo
ter sido inscrito pelo Criador na própria natureza do homem. Mas,
o referido aumento é efeito também da presença, no
mundo, do cristianismo, que não cessa de despertar e tornar eficaz
este imperativo, muitas vezes profundamente obscurecido no decurso da
história.
A reforma do paganismo, tentada pelo imperador Juliano o Apóstata,
é apenas um exemplo incipiente de tal eficácia. Neste sentido,
a força do cristianismo propaga-se muito para além das fronteiras
da fé cristã. Por isso, é muito importante que a
actividade caritativa da Igreja mantenha todo o seu esplendor e não
se dissolva na organização assistencial comum, tornando-se
uma simples variante da mesma. Mas, então quais são os elementos
constitutivos que formam a essência da caridade cristã e
eclesial?
a) Segundo o modelo oferecido pela parábola do
bom Samaritano, a caridade cristã é, em primeiro lugar,
simplesmente a resposta àquilo que, numa determinada situação,
constitui a necessidade imediata: os famintos devem ser saciados, os nus
vestidos, os doentes tratados para se curarem, os presos visitados, etc.
As organizações caritativas da Igreja, a começar
pela Cáritas (diocesana, nacional e internacional), devem fazer
o possível para colocar à disposição os correlativos
meios e sobretudo os homens e mulheres que assumam tais tarefas. Relativamente
ao serviço que as pessoas realizam em favor dos doentes, requer-se
antes de mais a competência profissional: os socorristas devem ser
formados de tal modo que saibam fazer a coisa justa de modo justo, assumindo
também o compromisso de continuar o tratamento.
A competência profissional é uma primeira e fundamental necessidade,
mas por si só não basta. É que se trata de seres
humanos, e estes necessitam sempre de algo mais que um tratamento apenas
tecnicamente correcto: têm necessidade de humanidade, precisam da
atenção do coração.
Todos os que trabalham nas instituições caritativas da Igreja
devem distinguir-se pelo facto de que não se limitam a executar
habilidosamente a acção conveniente naquele momento, mas
dedicam-se ao outro com as atenções sugeridas pelo coração,
de modo que ele sinta a sua riqueza de humanidade.
Por isso, para tais agentes, além da preparação profissional,
requer-se também e sobretudo a «formação do
coração»: é preciso levá-los àquele
encontro com Deus em Cristo que neles suscite o amor e abra o seu íntimo
ao outro de tal modo que, para eles, o amor do próximo já
não seja um mandamento por assim dizer imposto de fora, mas uma
consequência resultante da sua fé que se torna operativa
pelo amor (cf. Gal 5, 6).
b) A actividade caritativa cristã deve ser independente
de partidos e ideologias. Não é um meio para mudar o mundo
de maneira ideológica, nem está ao serviço de estratégias
mundanas, mas é actualização aqui e agora daquele
amor de que o homem sempre tem necessidade.
O tempo moderno, sobretudo a partir do Oitocentos, aparece dominado por
diversas variantes duma filosofia do progresso, cuja forma mais radical
é o marxismo. Uma parte da estratégia marxista é
a teoria do empobrecimento: esta defende que, numa situação
de poder injusto, quem ajuda o homem com iniciativas de caridade, coloca-se
de facto ao serviço daquele sistema de injustiça, fazendo-o
resultar, pelo menos até certo ponto, suportável.
Deste modo fica refreado o potencial revolucionário e, consequentemente,
bloqueada a reviravolta para um mundo melhor. Por isso, se contesta e
ataca a caridade como sistema de conservação do status quo.
Na realidade, esta é uma filosofia desumana.
O homem que vive no presente é sacrificado ao moloch do futuro
— um futuro cuja efectiva realização permanece pelo
menos duvidosa. Na verdade, a humanização do mundo não
pode ser promovida renunciando, de momento, a comportar-se de modo humano.
Só se contribui para um mundo melhor, fazendo o bem agora e pessoalmente,
com paixão e em todo o lado onde for possível, independentemente
de estratégias e programas de partido.
O programa do cristão — o programa do bom Samaritano, o programa
de Jesus — é «um coração que vê».
Este coração vê onde há necessidade de amor,
e actua em consequência. Obviamente, quando a actividade caritativa
è assumida pela Igreja como iniciativa comunitária, à
espontaneidade do indivíduo há que acrescentar também
a programação, a previdência, a colaboração
com outras instituições idênticas.
c) Além disso, a caridade não deve ser um
meio em função daquilo que hoje é indicado como proselitismo.
O amor é gratuito; não é realizado para alcançar
outros fins. [30] Isto, porém, não significa que a acção
caritativa deva, por assim dizer, deixar Deus e Cristo de lado. Sempre
está em jogo o homem todo. Muitas vezes é precisamente a
ausência de Deus a raiz mais profunda do sofrimento.
Quem realiza a caridade em nome da Igreja, nunca procurará impor
aos outros a fé da Igreja. Sabe que o amor, na sua pureza e gratuidade,
é o melhor testemunho do Deus em que acreditamos e pelo qual somos
impelidos a amar. O cristão sabe quando é tempo de falar
de Deus e quando é justo não o fazer, deixando falar somente
o amor. Sabe que Deus é amor (cf. 1 Jo 4, 8) e torna-Se presente
precisamente nos momentos em que nada mais se faz a não ser amar.
Sabe — voltando às questões anteriores — que
o vilipêndio do amor é vilipêndio de Deus e do homem,
é a tentativa de prescindir de Deus. Consequentemente, a melhor
defesa de Deus e do homem consiste precisamente no amor. É dever
das organizações caritativas da Igreja reforçar de
tal modo esta consciência em seus membros, que estes, através
do seu agir — como também do seu falar, do seu silêncio,
do seu exemplo —, se tornem testemunhas credíveis de Cristo.
Os responsáveis da acção caritativa
da Igreja
32. Por último, devemos ainda fixar a nossa atenção
sobre os responsáveis pela acção caritativa da Igreja,
a que já aludimos. Das reflexões feitas anteriormente, resulta
claramente que o verdadeiro sujeito das várias organizações
católicas que realizam um serviço de caridade é a
própria Igreja — e isto a todos os níveis, a começar
das paróquias passando pelas Igrejas particulares até chegar
à Igreja universal.
Por isso, foi muito oportuna a instituição do Pontifício
Conselho Cor Unum, feita pelo meu venerado predecessor Paulo VI, como
instância da Santa Sé responsável pela orientação
e coordenação entre as organizações e as actividades
caritativas promovidas pela Igreja Católica.
Depois, é cônsono à estrutura episcopal da Igreja
o facto de, nas Igrejas particulares, caber aos Bispos enquanto sucessores
dos Apóstolos a primeira responsabilidade pela realização,
mesmo actualmente, do programa indicado nos Actos dos Apóstolos
(cf. 2, 42-44): a Igreja enquanto família de Deus deve ser, hoje
como ontem, um espaço de ajuda recíproca e simultaneamente
um espaço de disponibilidade para servir mesmo aqueles que, fora
dela, têm necessidade de ajuda.
No rito de Ordenação Episcopal, o acto verdadeiro e próprio
de consagração é precedido por algumas perguntas
ao candidato, nas quais se exprimem os elementos essenciais do seu ofício
e são-lhe lembrados os deveres do seu futuro ministério.
Neste contexto, o Ordenando promete expressamente que será, em
nome do Senhor, bondoso e compassivo com os pobres e todos os necessitados
de conforto e ajuda. [31] O Código de Direito Canónico,
nos cânones relativos ao ministério episcopal, não
trata explicitamente da caridade como âmbito específico da
actividade episcopal, falando apenas em geral do dever que tem o Bispo
de coordenar as diversas obras de apostolado no respeito da índole
própria de cada uma. [32]
Recentemente, porém, o Directório para o ministério
pastoral dos Bispos aprofundou, de forma mais concreta, o dever da caridade
como tarefa intrínseca da Igreja inteira e do Bispo na sua diocese,
[33] sublinhando que a prática da caridade é um acto da
Igreja enquanto tal e que também ela, tal como o serviço
da Palavra e dos Sacramentos, faz parte da essência da sua missão
originária. [34]
33. No que diz respeito aos colaboradores que realizam,
a nível prático, o trabalho caritativo na Igreja, foi dito
já o essencial: eles não se devem inspirar nas ideologias
do melhoramento do mundo, mas deixarem-se guiar pela fé que actua
pelo amor (cf. Gal 5, 6). Por isso, devem ser pessoas movidas antes de
mais nada pelo amor de Cristo, pessoas cujo coração Cristo
conquistou com o seu amor, nele despertando o amor ao próximo.
O critério inspirador da sua acção deveria ser a
afirmação presente na II Carta aos Coríntios: «O
amor de Cristo nos constrange» (5, 14). A consciência de que,
nEle, o próprio Deus Se entregou por nós até à
morte, deve induzir-nos a viver, não mais para nós mesmos,
mas para Ele e, com Ele, para os outros.
Quem ama Cristo, ama a Igreja e quer que esta seja cada vez mais expressão
e instrumento do amor que dEle dimana. O colaborador de qualquer organização
caritativa católica quer trabalhar com a Igreja, e consequentemente
com o Bispo, para que o amor de Deus se espalhe no mundo. Com a sua participação
na prática eclesial do amor, quer ser testemunha de Deus e de Cristo
e, por isso mesmo, quer fazer bem aos homens gratuitamente.
34. A abertura interior à dimensão católica
da Igreja não poderá deixar de predispor o colaborador a
sintonizar-se com as outras organizações que estão
ao serviço das várias formas de necessidade; mas isso deverá
verificar-se no respeito do perfil específico do serviço
requerido por Cristo aos seus discípulos.
No seu hino à caridade (cf. 1 Cor 13), São Paulo ensina-nos
que a caridade é sempre algo mais do que mera actividade: «
Ainda que distribua todos os meus bens em esmolas e entregue o meu corpo
a fim de ser queimado, se não tiver caridade, de nada me aproveita
» (v. 3). Este hino deve ser a Magna Carta de todo o serviço
eclesial; nele se encontram resumidas todas as reflexões que fiz
sobre o amor, ao longo desta Carta Encíclica.
A acção prática resulta insuficiente se não
for palpável nela o amor pelo homem, um amor que se nutre do encontro
com Cristo. A íntima participação pessoal nas necessidades
e no sofrimento do outro torna-se assim um dar-se-lhe a mim mesmo: para
que o dom não humilhe o outro, devo não apenas dar-lhe qualquer
coisa minha, mas dar-me a mim mesmo, devo estar presente no dom como pessoa.
35. Este modo justo de servir torna humilde o agente.
Este não assume uma posição de superioridade face
ao outro, por mais miserável que possa ser de momento a sua situação.
Cristo ocupou o último lugar no mundo — a cruz — e,
precisamente com esta humildade radical, nos redimiu e ajuda sem cessar.
Quem se acha em condições de ajudar há-de reconhecer
que, precisamente deste modo, é ajudado ele próprio também;
não é mérito seu nem título de glória
o facto de poder ajudar. Esta tarefa é graça.
Quanto mais alguém trabalhar pelos outros, tanto melhor compreenderá
e assumirá como própria esta palavra de Cristo: «Somos
servos inúteis» (Lc 17, 10). Na realidade, ele reconhece
que age, não em virtude de uma superioridade ou uma maior eficiência
pessoal, mas porque o Senhor lhe concedeu este dom.
Às vezes, a excessiva vastidão das necessidades e as limitações
do próprio agir poderão expô-lo à tentação
do desânimo. Mas é precisamente então que lhe serve
de ajuda saber que, em última instância, ele não passa
de um instrumento nas mãos do Senhor; libertar-se-á assim
da presunção de dever realizar, pessoalmente e sozinho,
o necessário melhoramento do mundo.
Com humildade, fará o que lhe for possível realizar e, com
humildade, confiará o resto ao Senhor. É Deus quem governa
o mundo, não nós. Prestamos-Lhe apenas o nosso serviço
por quanto podemos e até onde Ele nos dá a força.
Mas, fazer tudo o que nos for possível e com a força de
que dispomos, tal é o dever que mantém o servo bom de Cristo
sempre em movimento: «O amor de Cristo nos constrange» (2
Cor 5, 14).
36. A experiência da incomensurabilidade das necessidades
pode, por um lado, fazer-nos cair na ideologia que pretende realizar agora
aquilo que o governo do mundo por parte de Deus, pelos vistos, não
consegue: a solução universal de todo o problema.
Por outro lado, aquela pode tornar-se uma tentação para
a inércia a partir da impressão de que, seja como for, nunca
se levaria nada a termo. Nesta situação, o contacto vivo
com Cristo é a ajuda decisiva para prosseguir pela justa estrada:
nem cair numa soberba que despreza o homem e, na realidade, nada constrói,
antes até destrói; nem abandonar-se à resignação
que impediria de deixar-se guiar pelo amor e, deste modo, servir o homem.
A oração, como meio para haurir continuamente força
de Cristo, torna-se aqui uma urgência inteiramente concreta. Quem
reza não desperdiça o seu tempo, mesmo quando a situação
apresenta todas as características duma emergência e parece
impelir unicamente para a acção. A piedade não afrouxa
a luta contra a pobreza ou mesmo contra a miséria do próximo.
A Beata Teresa de Calcutá é um exemplo evidentíssimo
do facto que o tempo dedicado a Deus na oração não
só não lesa a eficácia nem a operosidade do amor
ao próximo, mas é realmente a sua fonte inexaurível.
Na sua carta para a Quaresma de 1996, esta Beata escrevia aos seus colaboradores
leigos: «Nós precisamos desta união íntima
com Deus na nossa vida quotidiana. E como poderemos obtê-la? Através
da oração».
37. Chegou o momento de reafirmar a importância
da oração face ao activismo e ao secularismo que ameaça
muitos cristãos empenhados no trabalho caritativo. Obviamente o
cristão que reza, não pretende mudar os planos de Deus nem
corrigir o que Deus previu; procura, antes, o encontro com o Pai de Jesus
Cristo, pedindo-Lhe que esteja presente, com o conforto do seu Espírito,
nele e na sua obra.
A familiaridade com o Deus pessoal e o abandono à sua vontade impedem
a degradação do homem, salvam-no da prisão de doutrinas
fanáticas e terroristas. Um comportamento autenticamente religioso
evita que o homem se arvore em juiz de Deus, acusando-O de permitir a
miséria sem sentir compaixão pelas suas criaturas. Mas,
quem pretender lutar contra Deus tomando como ponto de apoio o interesse
do homem, sobre quem poderá contar quando a acção
humana se demonstrar impotente?
38. É certo que Job pôde lamentar-se com
Deus pelo sofrimento, incompreensível e aparentemente injustificado,
presente no mundo. Assim se exprime ele na sua dor: «Oh! Se pudesse
encontrá-Lo e chegar até ao seu próprio trono! (...)
Saberia o que Ele iria responder-me e ouviria o que Ele teria para me
dizer. Oporia Ele contra mim o seu grande poder? (...) Por isso, a sua
presença me atemoriza; contemplo-O e tremo diante dEle. Deus enervou
o meu coração, o Omnipotente encheu-me de terror»
(23, 3.5-6. 15-16).
Muitas vezes não nos é concedido saber o motivo pelo qual
Deus retém o seu braço, em vez de intervir. Aliás
Ele não nos impede sequer de gritar, como Jesus na cruz: «
Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?» (Mt 27, 46). Num diálogo
orante, havemos de lançar-Lhe em rosto esta pergunta: «Até
quando esperarás, Senhor, Tu que és santo e verdadeiro?»
(Ap 6, 10).
Santo Agostinho dá a este nosso sofrimento a resposta da fé:
«Si comprehendis, non est Deus – se O compreendesses, não
seria Deus». [35] O nosso protesto não quer desafiar a Deus,
nem insinuar nEle a presença de erro, fraqueza ou indiferença.
Para o crente, não é possível pensar que Ele seja
impotente, ou então que «esteja a dormir» (cf. 1 Re
18, 27).
Antes, a verdade é que até mesmo o nosso clamor constitui,
como na boca de Jesus na cruz, o modo extremo e mais profundo de afirmar
a nossa fé no seu poder soberano. Na realidade, os cristãos
continuam a crer, não obstante todas as incompreensões e
confusões do mundo circunstante, «na bondade de Deus e no
seu amor pelos homens» (Tt 3, 4).
Apesar de estarem imersos como os outros homens na complexidade dramática
das vicissitudes da história, eles permanecem inabaláveis
na certeza de que Deus é Pai e nos ama, ainda que o seu silêncio
seja incompreensível para nós.
39. A fé, a
esperança e a caridade caminham juntas. A esperança manifesta-se
praticamente nas virtudes da paciência, que não esmorece
no bem nem sequer diante de um aparente insucesso, e da humildade, que
aceita o mistério de Deus e confia nEle mesmo na escuridão.
A fé mostra-nos o Deus que entregou o seu Filho por nós
e assim gera em nós a certeza vitoriosa de que isto é mesmo
verdade: Deus é amor! Deste modo, ela transforma a nossa impaciência
e as nossas dúvidas em esperança segura de que Deus tem
o mundo nas suas mãos e que, não obstante todas as trevas,
Ele vence, como revela de forma esplendorosa o Apocalipse, no final, com
as suas imagens impressionantes.
A fé, que toma consciência do amor de Deus revelado no coração
trespassado de Jesus na cruz, suscita por sua vez o amor. Aquele amor
divino é a luz — fundamentalmente, a única —
que ilumina incessantemente um mundo às escuras e nos dá
a coragem de viver e agir. O amor é possível, e nós
somos capazes de o praticar porque criados à imagem de Deus. Viver
o amor e, deste modo, fazer entrar a luz de Deus no mundo: tal é
o convite que vos queria deixar com a presente Encíclica.
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